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O jornalismo caseiro e a entrevista ao PM

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.12.16

 

 

Há muito tempo que não escrevo aqui sobre o jornalismo caseiro, mas depois de assistir ontem à entrevista da RTP3 ao PM... bem, não resisti.

 

O que distingue um bom de um mau jornalismo?

Em primeiro lugar, colocaria cultura abrangente e maturidade, e só depois, isenção, objectividade, atenção às questões essenciais, capacidade de situar e contextualizar, consciência da responsabilidade dos media na informação e do seu impacto nas sociedades.

 

O que é que se passa, então, com o jornalismo caseiro?

Temos por cá 3 tipos de jornalismo:

- o jornalismo de qualidade: além da isenção, objectividade, atenção às questões essenciais, situar e contextulizar, tem perfeita consciência do papel dos media nas sociedades e revela, por isso mesmo, uma responsabilidade pela informação que é importante para os espectadores;

- o assim assim: o que tenta ser isento, objectivo, colocar as perguntas importantes, mas não consegue libertar-se das suas crenças pessoais nem da sua curiosidade obsessiva, não distinguindo assuntos de não assuntos, acertando ao lado e saltando as questões que verdadeiramente interessam aos espectdores e não percebendo o papel dos media e a sua responsabilidade;

- o medíocre: segue uma agenda, leva as perguntas que previamente lhe pediram para colocar e as perguntas já vão artilhadas, é agressivo, invasivo, inconveniente, interrompe, opina, mostra que se foi informar nos corredores, viu papéis escritos, e tudo para tentar minimizar o que corre bem e aumentar o que pode correr mal.

 

Escusado será dizer que o jornalismo assim assim e o jornalismo medíocre não revelam uma cultura abrangente, não situam nem contextualizam, não percebem quais são as questões essenciais nem revelam responsabilidade pelo seu papel na informação.

 

Exemplo: a insistência no não assunto "declaração de rendimentos". Qualquer jornalista competente já percebeu há muito que tudo se assemelhou a um obstáculo a que as coisas corram bem no banco público = corram bem na economia portuguesa = corram bem aos cidadãos portugueses. Tudo bem, corre bem ao governo e aos partidos do acordo de governo, mas é isso o mais importante?

O não assunto "declaração de rendimentos" foi alimentado pelos media durante semanas. Qualquer gestor responsável, vendo o não assunto começar a correr publicamente, ia a correr entregar a declaração ao Tribunal Constitucional, para não prejudicar o banco público de que é responsável, e a economia portuguesa que depende, numa parte importante, dos seus resultados. Ao entregar a declaração de rendimentos depois de se ter demitido, apenas confirma o dito obstáculo, ou pior, a ausência de consciência desse facto.

 

Vejam agora como funciona a cabeça do jornalismo assim assim e do jornalismo medíocre: corre bem ao governo e aos partidos do acordo que o suporta, logo, não interessa se isso implica correr bem ao banco público, à economia portuguesa ou aos cidadãos portugueses, a pergunta aí vai ligada às palavras-chave "fracasso" e "primeiro desaire".

 

As perguntas essenciais estão por fazer: o comportamento da nossa economia, o papel do banco público na nossa economia, os programas, as perspectivas do governo para 2017, a solidez do sistema bancário. Depois, a Europa, a CE e o Eurogrupo, a UE depois do Brexit, o panorama actual sem Renzi na Itália. A curiosidade seria uma opinião sobre o impacto do Trump na economia europeia e, consequentemente, na nossa. Esses é que são os nossos desafios actuais.

 

Pior do que o jornalismo assim assim e o jornalismo medíocre em entrevistas, é o dito jornalismo enquanto comentador. O PM "irrita-se" com algumas perguntas sobre a Caixa; a "hipocrisia" [do PM, ainda sobre o "acordo escrito" e a "declaração de rendimentos"]; [o PM] "empurrou para o Banco de Portugal... para o ministro das Finanças...".

A meu ver, os factos observáveis: o PM reagiu com bonomia e procurou focar-se nas questões essenciais. Aliás, foi interessante ver como antecipou o tipo de entrevista, quando respondeu à pergunta da jornalista se estava preparado: que preferia responder directamente às perguntas dos cidadãos porque se referiam às questões importantes para a sua vida.

Em todo o caso, sabe bem sentir, para variar, que o governo é gerido com inteligência, e que é suportado por um acordo a três: PS, Bloco, PCP/PEV.

 

 

publicado às 07:52


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